E a
infinita e complexa interação destes três princípios reflete o
aspecto mais material da criação dos níveis macro ao
microcósmico em todos os seres vivos. Os doshas também são a
ponte entre nossa mente e nossa fisiologia.
Cada
um dos doshas está relacionado a uma essência sutil: Vata está
relacionado com o Prana - a energia vital, que se subdivide em
cinco pranas (ou vayus = ventos); Pitta com Tejas ou Agni, o
fogo essencial (cujo aspecto mais importante para o Ayurveda é
Jataragni, o fogo digestivo) e Kapha com Ojas, a energia mental.
Poderíamos dizer, utilizando as palavras de Robert Svoboda, que
Prana, Tejas e Ojas "são as expressões quintessenciais dos cinco
Mahabhutas em sua aplicação à vida encarnada" e que os doshas
"são as formas mais grosseiras de Prana, Tejas e Ojas", e "são
as formas condensadas dos cinco Mahabhutas".
As
três gunas atuam interagindo-se ampla e profundamente nos e com
os três doshas, mas de uma forma geral, Vata e Pitta
relacionam-se mais a Rajas e Kapha a Tamas (Sattwa é a guna do
equilíbrio).
Há
mais de 5000 anos na Índia, desenvolveu-se a Medicina
Ayurvédica, profundamente embasada na filosofia Samkhya e no
Tantra (também de origem dravidiana pré-védica). Nesta ciência,
a espinha dorsal é o conhecimento dos doshas e sua atuação no
ser humano, tanto física, quanto psicológica , emocional e
energeticamente.
A
partir dos conhecimento dos doshas e da origem e consequências
de seus desequilíbrios , estabeleceu-se tipologias específicas,
e a partir daí toda uma metodologia de diagnósticos, dietética,
massagens, fitoterapia, farmacologia, cirurgia, etc.
Todas
as pessoas apresentam uma interação complexa destes três
princípios. O mais comum é predominar um dos doshas, havendo o
hábito de ser dizer, por exemplo, que tal pessoa é " Vata-Pitta"
ou " Pitta-Kapha", considerando-se o dosha predominante e o que
vem em segundo lugar de importância.
São
duas, as classificações consideradas para efeito do levantamento
da tipologia pessoal: a prakritti, isto é, a sua
configuração dos três doshas por ocasião de seu nascimento, e a
vikritti, a configuração que se apresenta agora, neste
momento. A sua referência de equilíbrio é a sua própria
prakritti. As terapias ayurvédicas estarão sempre ajudando a
manter e/ou trazer sua vikritti no nível da sua prakritti.
O
dosha Vata é sempre o que mais se desequilibra, geralmente
também desequilibrando os outros doshas.
Este
perfil pessoal vai apontar entre outras coisas - e o que é,
aliás, o assunto central deste texto - os pontos fracos, as
vulnerabilidades e fragilidades inerentes aos doshas
predominantes, e quando em desequilíbrio.
Predominância Vata ou aumento de Vata, por exemplo, criam
vulnerabilidades na área das articulações (artroses, artrites,
etc.), dos intestinos (prisão de ventre), tendência para o
consumismo, apetite instável, stress, doenças nervosas, dores em
geral, medos, insônia e memória ruim. Como é um dosha frio e
seco, poderá haver tendência a se resfriar, e a ter pele e
cabelos secos. Tem normalmente estrutura corporal magra e
ossuda.
Vata
está relacionado aos cinco pranas, pois cada prana é um
sob-dosha de Vata (cada dosha tem cinco sub-doshas), ainda
assim, tem uma relação mais intensa com os pranas: Prana
(aspecto funcional do prana que gerencia os processsos de
absorção. Está relacionado ao chakra Anahata - elemento ar - e a
glândula timo, gerenciando a respiração, atividade cardíaca,
cintura escapular , membros superiores, afetos e sentimentos) e
Udana (É o prana do chakra Vishuddha - elemento éter - e da
glândula tireóide. Gerencia voz, garganta, cervical, visão,
olfato, audição, todo o cérebro, criatividade, comunicação).
A
predominância Pitta ou seu aumento excessivo, poderá acarretar
em fragilidade na área estomacal - gastrites, por exemplo - se
abusar, pois Pitta come muito bem e em geral digere bem. Tem
tendência à irritabilidade, raiva, ódio e ciúme. É o "pavio
curto", o que aliás também é péssimo para o estômago, aumentando
a secreção de ácido clorídrico, tornando-o uma vitima potencial
de úlcera. Eventualmente pode ter desarranjos intestinais e
problemas de pele. Como é um dosha quente, Pitta tem pouca
tolerância ao calor.
Pitta
está relacionado ao prana Samana (prana da assimilação.
Relaciona-se ao chakra Manipura - elemento fogo e a glândula
pâncreas, gerenciando o calor corporal, a digestão, estômago,
intestino delgado, fígado, vesícula, emoção, auto-estima, poder
pessoal).
Por
fim, a predominância Kapha apresenta normalmente forte estrutura
corporal, com tendência a obesidade. De apetite voraz, tem
tendência a ter glicose e colesterol altos. Dorme muito. Pode
vivenciar preguiça, pessimismo, inveja, estados depressivos e
também avareza e mesquinhez.
Kapha
tem tendência a criar muito muco, devendo ter cuidado para
evitar pneumonias, rinites, sinusites, bronquites. E uma das
principais características de Kapha é a umidade e a oleosidade.
Kapha
está relacionado aos pranas Vyana (prana da circulação. Está
relacionado ao chakra Swadhisthana - elemento água - e às
glândulas reprodutoras, gerenciando a circulação dos líquidos
pelo corpo, a cintura pélvica, região lombar, sensualidade,
sexualidade e reprodução) e Apana (prana da eliminação.
Relacionado ao chakra Muladhara - elemento terra - e as
glândulas supra-renais. Gerencia a base, as pernas e os pés,
intestino grosso, ânus, excreções de uma forma geral, instinto
de defesa, apego, medo).
Então, para ajudar na promoção da saúde e no tratamento das
doenças, o Ayurveda utiliza o Yoga como uma das suas mais
importantes ferramentas terapêuticas. Aliás, todo o conhecimento
- teórico e prático - espiritual, filosófico e terapêutico hindu
repousa solidamente sobre os pilares do Ayurveda, do Yoga, do
Tantra e da Vedanta.
Seguindo a premissa ayurvédica de que todo o trabalho deve ser
absolutamente personalizado, a Yogaterapia ayurvédica (chamada
pelo Dr. Vasant Lad de AyurYoga) vai buscar atuar de acordo com
as particularidades tipológicas de cada um, utilizando o
instrumental do Hatha e do Tantra Yoga - asanas (posturas),
pranayamas (respirações), kriyas (limpezas), bandhas
(contrações), mudra (gestos energéticos), mantras (vocalizações
energéticas), nidra (relaxamento) e meditação - que podem ser
associados a práticas ayurvédicas complementares, tais como
massagem, dietética e fitoterapia.
A
prática yóguica mais diretamente relacionada com os doshas é a
Pavana Muktasana.
Trata-se de uma técnica formada de quatro séries de exercícios
físicos e respiratórios:
- A
primeira série chamada "anti-reumática" (Sukshma Vyayama -
exercícios sutis), trabalha mobilizações que movimentam todas as
articulações do corpo, desimpedindo o fluxo energético por atuar
sobre os chakras auxiliares localizados em cada articulação do
corpo. As articulações acumulam toxinas oriundas principalmente
da má alimentação e da vida sedentária. Esta série está
relacionada a Vata dosha.
- A
segunda série chamada "anti-gastrítica" (ou Apanasana: as asanas
do apana, a energia que gerencia a excreção), trabalha
envolvendo principalmente a musculatura abdominal. Energiza e
equilibra o Jataragni. Esta série está relacionada a Pitta dosha,
embora Vata também seja beneficiado em razão de sua tendência à
prisão de ventre.
- A
terceira série, energizante (Shakti bandhas: contrações
energéticas), está relacionada a Kapha dosha.
- E a
quarta série chamada Trataka, são exercícios específicos para os
olhos , e que vão beneficiar especialmente Pitta, que é o dosha
dos olhos, da visão.
As
técnicas de Pavana muktasana (literalmente "liberação dos
ventos" - articulares, estomacais e intestinais) foram
resgatadas e recodificadas por Swami Satyananda Saraswati, e
podem ser encontradas em seu livro: "Yogasana, Pranayama, Mudra,
Kriya, Nidra" e no livro "Psicologia do Tantra" do prof. Paulo
Murilo Rosas. Pavana Muktasana é excelente para manter e/ou
restaurar o equilibrio dos três doshas.
A
série de Surya Namaskara (saudação ao Sol) também pode e deve
ser feita regularmente para equilibrar os doshas. Deve-se apenas
observar que esta série, segundo o Tantra, atua energizando
especialmente a nadi Pingala (polaridade solar, masculina,
quente, positiva). Como Vata e Kapha estão mais relacionados a
nadi Ida (polaridade lunar, fria, feminina, negativa) e Pitta a
nadi Pingala, as pessoas de Vata e Kapha devem fazer a série de
forma bem dinâmica com as respectivas respirações e as pessoas
Pitta devem fazer a série mais lentamente, com a respiração
livre, suave e profunda.
Vata
está relacionado com o chakras Anahata (elemento ar) e Vishudha
(éter) e necessita de "trabalho de base" para drenar o excesso
de energia dos chakras superiores para os básicos.
Vata
será beneficiado com a prática de Yoga Sukshma Vyayama (ver
"Psicologia do Tantra", prof. Paulo Murilo Rosas), que aquece e
promove "grounding", trabalhando a energia dos chakras
superiores para os básicos (Shristhi krama, ou o Caminho da
criação).
Posturas de grounding também são os Trikonasanas e Parshwa
Konasana - que também aumentam a capacidade respiratória
promovendo a abertura do gradil costal - e os Guerreiros 1 e 2.
O
trabalho de Pavana Muktasana é excepcionalmente benéfico para
Vata, especialmente as duas primeiras séries, mas as pessoas que
possuem este dosha muito elevado não devem exagerar, pois esta
técnica trabalha movimentando a energia dos chakras básicos para
os superiores (chamado no Tantra de Laya krama, ou o Caminho da
dissolução). Uma solução seria alternar Pavana Muktasana com
Yoga Sukshma Vyayama.
Posturas de meditação - dhyanasanas (Padmasana, Vajrasana,
Sukhasana, Siddhasana) vão dar segurança e estabilidade para
Vata. É o dosha mais beneficiado pelas práticas de concentração
e meditação.
Surya
Namaskara também é excelente para equilibrar Vata, promover
grounding, aquecer e manter as articulações e os intestinos em
boas condições. Trabalhos articulares para a coluna, como o Gato
- que pode ser desdobrado de várias formas - vão manter a saúde
das articulações vertebrais, raízes nervosas, ligamentos e
músculos das costas. Também são interessantes as posturas de
extensão (Bhujangasana, Dhanurasana, Chakrasana, Ustrasana) -
para abrir os peitorais e o gradil costal; de flexão da coluna (Paschimottanasana,
Padahastasana, Janushirshasana) para tonificar os intestinos e
sedar o sistema nervoso; e de equilibrio (Vrikshasana,
Natarajasana).
E é
bastante útil a prática de Mula bandha (contração do períneo)
durante as asanas, para tonificar o aparelho excretor e para
energizar os dois primeiros chakras básicos.
Pranayamas com ritmo e sem retenções prolongadas - como Anuloma
Viloma, respiração completa com krama, respiração quadrada (Samavritti)
- são boas para equilibrar Vata.
Pitta
dosha será reequilibrado com pranayamas sedantes: Chandra,
Chandra bheda, Nadi shodhana, Shitali, Sitkari, e lentas
respirações abdominais com ênfase na expiração.
Asanas de compressão do ventre são importantes para sedar Pitta
e acalmar o Jataragni, como Paschimottanasana e Matsyendrasana.
Inversamente, posturas de extensão (Chakrasana, Ustrasana,
Dhanurasana) vão tender a aumentar Pitta e o Jataragni.
O
trabalho de Pavana Muktasana - especialmente a segunda série -
vai ajudar a equilibrar Pitta. Pitta também é sedado com
posturas de inversão (Viparita karani e Sarvangasana). Posturas
de equilíbrio também são importantes para Pitta. É o dosha mais
beneficiado pela prática de relaxamento e de Yoga Nidra
(meditação composta de relaxamento com visualizações).
O
dosha Pitta é o que está mais diretamente relacionado com
Jataragni, o fogo digestivo, por isso são muito úteis os
trabalhos com as Kriyas (purificações) Agni sara (limpeza pelo
fogo) e Kapalabhati (o sopro do crâneo) e com Uddhyana bandha
(se não houver gastrite), feitas sem exagero. Vão equilibrar e
manter a boa qualidade do Jataragni.
Bhastrika
pranayama (o fole) vai aumentar bastante Pitta e o Jataragni.
Yoga Sukshma Vyayama também vai tender a aumentar Pitta.
De
uma forma geral, os pranayamas - especialmente os com retenções
mais longas - vão beneficiar especialmente o dosha Kapha,
mantendo o aparelho respiratório em boas condições. Respiração
completa com ritmo (1:4:2:4) e com ênfase nas fases média
(intercostal) e alta (subclavicular).
Kriyas de limpeza como Kapalabhati e Agni Sara, e pranayamas
tonificantes como bhastrika (se não for hipertenso), Surya e
Surya bheda, Ujjayi, feitos moderadamente, são interessantes
para Kapha.
Este
dosha também será muito beneficiado com a prática de asanas de
uma forma mais movimentada, como Surya Namaskara ou asanas com
vinyasa (asanas dinâmicas preparatórias).
Kapha,
o dosha da base, da estrutura, está relacionado aos chakras
básicos : Muladhara (elemento terra) e Swadhisthana (água).
A
Pavana Muktasana vai atuar positivamente em Kapha, drenando o
excesso de energia da base para os chakras superiores.
Já
Yoga Sukshma Vyayama, que embora seja uma técnica quente e
movimentada - bom, portanto, para Kapha - funciona drenando a
energia para os chakras básicos, e não deve ser feita com
exagero, preferencialmente alternando-se com Pavana.
Segundo o critério de Langhana e Brimhana - os parâmetros
ayurvédicos de classificação e avaliação dos processos da
sedação e da tonificação (e que será assunto de um outro texto),
dentre as asanas e os pranayamas que tem efeitos sedantes e
tonificantes, aqueles que tem especificamente efeito
equilibrador e harmonizador para todas as tipologias são: nadi
shodhana (a respiração polarizada) e shirshasana (postura sobre
a cabeça), esta última levando-se em conta suas
contra-indicações (hipertensão, glaucoma,etc.).
Asanas para os desiquilíbrios dos doshas
Segundo o Dr. Vasant Lad
1.
Asanas para desequilíbrios de Vata:
-
ASMA: Supta Vajrasana, Halasana, Pavana Muktasana (a asana) ,
Shavasana.
- DOR NAS COSTAS: Pavana Muktasana, Halasana, Ardha Chakrasana,
Supta Vajrasana.
- PRISÃO DE VENTRE: Supta Vajrasana, Yoga Mudra, Pavana
Muktasana, Sarvangasana, Shavasana. Fazer todas as asanas com a
barriga contraída.
- DEPRESSÃO: Yoga Mudra, Halasana, Padmasana, Nitambasana,
Shavasana.
- DOR CIÁTICA: Pavana Muktasana, Supta Vajrasana, Halasana, Yoga
Mudra, Ardha Chakrasana.
- DEBILIDADE SEXUAL: Supta Vajrasana, Halasana, Sarvangasana,
Kukutasana.
- VARIZES: Sirshasana, Supta Vajrasana, Shavasana.
- RUGAS: Yoga Mudra, Supta Vajrasana, Sirshasana, Halasana.
- ARTRITE REUMATÓIDE: Ardha Chakrasana, Dhanurasana, Halasana,
Sirshasana, Supta Vajrasana.
- DOR DE CABEÇA: Halasana, Yoga Mudra, Sirshasana.
- INSÔNIA: Shavasana, Bhujangasana, Supta Vajrasana.
- DISTÚRBIOS MENSTRUAIS: Halasana, Bhujangasana, Ardha
Chakrasana, Yoga Mudra.
2.
Asanas para desequilíbrios de Pitta:
-
ÚLCERA PÉPTICA: Shitali Pranayama.
- HIPERTIREOIDISMO: Sarvangasana, Karna Pidasana.
- MÁ DISGESTÃO: Pavana Muktasana, Matsyasana, Shalabhasana.
- HIPERTENSÃO: Sarvangasana, Bhujangasana, Naukasana.
- RAIVA OU ÓDIO: Naukasana, Sarvangasana, Shavasana.
- ENXAQUECA: Shitali Pranayama, Sarvangasana, Matsyasana.
- COLITE: Matsyasana, Karna Pidasana, Navasana, Dhanurasana.
- DISTÚRBIO HEPÁTICO: Matsyasana, Sarvangasana, Karna Pidasana.
- HEMORRÓIDAS: Matsyasana, Sarvangasana, Dhanurasana.
- ESTOMATITE (Inflamação da língua): Shitali Pranayama.
3.
Asanas para desequilíbrios de Kapha:
-
BRONQUITE: Sirshasana, Halasana, Garbhasana, Supta Vajrasana,
Ardha Chakrasana, Matsyasana.
- EFIZEMA: Ardha Chakrasana, Sarvangasana.
- RINITE: Matsyasana, Navasana, Halasana, Dhanurasana, Bhastrika.
- SINUSITE: Simhasana, Paschimottanasana, Matsyasana.
- DIABETES: Navasana, Matsyasana, Ardha Chakrasana, Supta
Vajrasana, Garbhasana.
- DESORDENS GASTROINTESTINAIS CRÔNICAS: Matsyasana, Shalabhasana,
Bhujangasana.
- GARGANTA INFLAMADA: Simhasana, Sarvangasana, Shalabhasana,
Matsyasana.
- BRONQUITE ASMÁTICA: Ardha Chakrasana, Dhanurasana,
Sarvangasana, Navasana, Nitambasana, Matsyasana, Bhujangasana.
Bibliografia: