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Subsídios para um estudo comparativo sobre
as três visões da criação segundo o Samkhya
1. Introdução
Segundo o Samkhya - a filosofia pré-védica que embasa o Yoga
e o Ayurveda e que classifica e estuda todo o processo da
manifestação do universo (e cujo significado é "enumeração") - a
criação começa a partir da interação de um princípio espiritual,
transcedental, absoluto - Purusha, com um princípio vital,
material, relativo - Prakriti.
A
partir daí, nossos estudos nos defrontaram com três leituras
diferentes daquilo que o Samkhya, em sua ciência enumerativa,
chama de Tattwas - que significa fatores, elementos, e também
Verdade.
O
texto de Zimmer e do Dr. Vasant Lad provavelmente reportam-se à
descrição de uma leitura mais chegada ao Samkhya ortodoxo. O
texto de Shankara, se constrói à partir do material apresentado
pelo Samkhya e dá ao tema - TattwaBoddha quer dizer Conhecimento
da Verdade - uma releitura vedântica.
2. Segundo H.Zimmer
A
partir da manifestação de Prakriti com suas gunas, surge o nível
Causal - Buddhi / Mahat - a potencialidade suprapessoal das
experiências.
De
Buddhi manifesta-se Ahamkara, o ego, cuja função é apropriar-se
dos dados da consciência e errôneamente os atribuir ao Purusha.
De
Ahamkara manifestam-se
- Manas
(a mente, a faculdade de pensamento).
- os
cinco Jñana indriyas (faculdades dos sentidos: ouvido /
shrotra , pele / twak, olhos / chakshuh, língua / rasana e
nariz / ghrana ).
- os
cincoKarma indriyas (faculdades da ação: bôca / vak, mãos /
pani, pés / pad , ânus / payu, genitais / upasthani).
- os
cinco Tanmatras (os elementos sutis, primários,
compreendidos como as contrapartes internas e sutís das
cinco experiências sensoriais, a saber: som, tato, cor e
forma, sabor e odor - shabda, sparsha , rupa , rasa , gandha).
- os
parama-anu (átomos sutis dos quais temos consciência nas
experiências do corpo sutil
- os
sthula bhuta ( os cinco elementos densos: éter, ar, fogo,
água e terra, que constituem o corpo denso e o mundo visível
e tangível, dos quais temos conhecimento pelas experiências
sensoriais).
3. Segundo Dr. Vasant Lad
Da
interação Purusha / Prakriti, manifesta-se Mahat, que manifesta
Ahamkara, e deste manifestam-se as três Gunas.
De
Sattwa, manifestam-se:
- As
cinco faculdades dos sentidos (órgãos de percepção):
ouvidos, pele, olhos, língua, nariz.
- Os
cinco órgãos motores (órgãos de ação): boca, mãos, pés,
órgãos reprodutores, órgãos excretores.
- A
Mente: um órgão de ambas : percepção e ação.
De
Tamas manifestam-se:
- Som
(guna do éter - akasha)
- Tato
(guna do ar - vayu)
- Visão
(guna do fogo - agni ou tejas)
- Paladar
(guna da água - apah ou jala)
- Olfato
(guna da terra - prithivi)
Rajas
não manifesta nenhum tattwa em especial.
4. Segundo Shri Shankaracharya
A
partir da manifestação das Gunas - dando início a Panchikaranam,
o processo de densificação dos elementos - surgem
progressivamente os cinco Tanmatras (elementos sutis): akasha,
vayu, tejas, apah e prithivi.
Cada
Tanmatra divide-se em três partes: uma sattwica, uma rajásica e
uma tamásica. A parte Tamas, por sua vez divide-se em duas
partes, sendo que uma delas redivide-se em quatro partes,
cabendo a cada parte um elemento, alternadamente.. Do aspecto
sattwico do tanmatra akasha, manifesta-se o jñana indriya
ouvido.
Do aspecto sattwico do tanmatra vayu,
manifesta-se o jñana indriya tato.
Do Sattwa de apah, manifesta-se o jñana indriya paladar.
Do Sattwa de tejas, manifesta-se a visão.
Do Sattwa de prithivi, manifesta-se o olfato.
Da soma do Sattwa dos cinco Tanmatras manifesta o Antakarana
(Manas-mente, Buddhi-intelecto e Ahamkara-ego).
Do aspecto rajasico do tanmatra akasha, manifesta-se o karma
indriya fala.
Do aspecto rajasico do tanmatra vayu, manifesta-se o karma
indriya mãos.
Do Rajas de tejas, manifesta-se o karma indriya pés. Do Rajas de
apah, manifesta-se o karma indriya ânus.
Do Rajas e prithivi, manifestam-se os genitais.
Da soma do Rajas dos cinco tanmatras, manifestam-se os cinco
pranas (akasha-udana, vayu-prana, tejas-samana, apah-vyana e
prithivi-apana).
Da soma do Tamas dos cinco tanmatras manifestam-se os cinco
mahabhutas correspondentes (éter,ar,fogo,água,terra, os mesmos
elementos, só que densos).
5. Conclusão
Obviamente
que a aparente incoerência entre as três visões acima
apresentadas - fato absolutamente corriqueiro quando se estuda
filosofia oriental - reflete, não uma suposta fragilidade dos
sistemas filosóficos hindús (ou alguma maluquice dos três
autores), e sim, a infinita liberdade especulativa e
experimentadora característica do universo oriental.
Esta
liberdade fundamenta-se não somente em função de uma enorme
quilometragem de reflexão e experienciação (10.000 anos é
bastante tempo), mas também da profunda compreensão de que, se
por um ponto de vista somos todos seres individuais, singulares
(jiva), e estamos separados dos outros, de Deus (Brahman) e da
Natureza (Jagat), visto por outro prisma somos absolutamente
unos. E só a reintegração desta singularidade pode proporcionar
o acesso ao outro ponto de vista, isto é, à experimentação do
total, do pleno, da felicidade.
Esta
premissa dialética básica - a relação dualidade / unidade
(relativo / absoluto) é o principal fundamento do Veda, e a
partir daí desdobra-se todo um universo de conhecimentos
teóricos e práticos, mitológicos, teológicos, filosóficos e
psicológicos, cujo objetivo é suprir justamente a demanda dessa
nossa singularidade que caminha rumo ao Uno.
É
óbvio que uma só religião ou uma só filosofia ou teologia, não
poderiam funcionar para todos e em todos os tempos. Cada um é um
microcosmo absolutamente ímpar, e para cada natureza deve haver
uma diretriz, um método, uma forma de caminhar rumo à um (mesmo)
centro.
E
assim se construiu a filosofia hindú, compatibilizando em um
mesmo caldeirão efervescente, miríades de tendências, linhas e
escolas, muitas vezes aparentemente antagônicas, mas todas
regidas pela batuta do Veda. E tudo isso é chamado de Sanathana
Dharma, ou o Dharma (Lei, Caminho, Dever, Religião) Eterno.
Esse
magnífico mosaico milenar que é a cultura védica, manteve-se ao
longo dos milênios intuindo, desdobrando, experimentando e
desenvolvendo técnicas, métodos e visões filosóficas de diversos
níveis e abrangências.
As
três visões do Samkhya aqui apresentadas refletem este espírito
investigativo característico, onde prática, conhecimento e
intuição estão entre as grandes ferramentas utilizadas para a
compreensão e o desdobramento dos textos antigos.
E aí,
ao longo das eras, os sábios (Rishis e Pandits) foram relendo,
adaptando, ampliando os comentários dos textos originais, sempre
buscando atender às mudanças dos tempos, à esta pluralidade
inerente ao ser humano, e também seguindo a própria natureza do
homem que é a de geralmente fundamentar sua exposição ou
comentário sobre qualquer assunto, em seu próprio insight.
Aliás,
uma característica dos Vedas é terem sido elaborados para serem
"decifrados" e comentados por aqueles que tiveram a experiência
do Um, seguindo assim a idéia de " aprenda, experimente,
pratique, realize, só depois ensine" , procedimento que manteve
intacta, no decorrer dos séculos, a pureza dos ensinamentos.
Bibliografia
-
Filosofias da India, Heinrich Zimmer. Ed. Palas Athena
-
Ayurveda, Ciência da Auto-cura, Dr. Vasant Lad. Ed. Ground
-
Tattwabodha, Sri Shankaracharya (tradução de Glória Arieira)
- Os
segredos do Tantra e do Yoga, Paulo Murilo Rosas
Ernani
Fornari (Dharmendra)
http://www.geocities.com/yogaterapia/
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