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A estruturação do
psiquismo segundo o Hinduísmo
“Quem sou eu?” é, sem dúvida, a pergunta mais importante do
universo humano.
E é claro, “De onde vim e para onde
vou?”, “Quem é Deus?”, e tantas outras perguntas do mesmo teor,
vêm na seqüência.
E em toda a história da Humanidade,
o homem mergulhou intensamente na busca desta resposta.

Para tanto, criou inúmeras
religiões, filosofias, ciências e psicologias, sempre na ânsia
ancestral e atávica, de desvendar aquilo que os índios
norte-americanos chamam de “O Grande Mistério”.
A idéia central das culturas
orientais e xamânicas – a Unidade – traz o conceito de que tudo
é Um, o Universo é um único organismo consciente e totalmente
interagente, e que toda a percepção e sensação de separatividade
é uma ilusão (maya).
Os hindus chegam a dizer que a
única doença de que nós realmente sofremos – todas as outras
(físicas e psíquicas) são um desdobramento desta – é avidya, a
ignorância da nossa natureza real, a Unidade.
E é assim que nós nos sentimos:
totalmente cindidos, fragmentados. Tanto externamente – nos
sentimos separados de cada semelhante, da Natureza e do que
acreditamos que seja Deus; quanto internamente – corpo, cabeça e
coração raramente se alinham.
Na tarefa humana de caminhar para a
Luz, em primeiro lugar é importante perceber que quando
trabalhamos conosco ou com outra pessoa, estamos
fundamentalmente lidando com as duas instâncias mais externas da
personalidade - a auto-imagem e a
persona – que são construções psico-emocionais
limitadoras desenvolvidas por nós (inconscientemente, na maior
parte do tempo) paradoxalmente para nos defender.
A auto-imagem é “quem eu acredito
que eu sou”. É um sistema de crenças que nós artificialmente
construímos como proteção em função das nossas experiências
dolorosas, e que nos dão uma imagem e uma perspectiva de nós
mesmos, que na maior parte das vezes nós sentimos como muito
desfavorável, ou ao contrário (mas pela mesma defesa), o ego
infla e a pessoa se sente exageradamente o máximo.
A persona é “quem eu quero que
acreditem que eu sou”. São as nossas máscaras sociais filhas da
auto-imagem, e que procuram compensar esta.
E a auto-imagem e a persona são
competente e eficientemente fomentadas, mantidas e monitoradas
pela mente e pelo ego.
A auto-imagem e a persona são
componentes importantíssimos na construção da nossa visão de
mundo, a chamada “realidade” (que é o que nós acreditamos que a
vida é).
Outro movimento do psiquismo - que
foi percebido por S. Freud bem no início da estruturação da
Psicanálise - são as pulsões da busca do prazer e da evitação
da dor. E todo o complexo psico-emocional trabalha neste
sentido: o de nos manter afastados do contato com a dor.
Na infância, quando passamos por
experiências traumáticas, estas impressões são “escondidas” no
inconsciente. A intenção é que não tenhamos que estar sempre
entrando em contato com nossas dores (ou do que a mente acredita
serem dores), pois seria insuportável viver assim, lembrando o
tempo todo de tudo o que de ruim nos aconteceu.
O problema é que estas dores
continuam vivas no inconsciente, produzindo ao longo do tempo um
sistema de crenças e padrões que irá contribuir decisivamente na
formação do caráter e da personalidade, e também na somatização
de doenças físicas, psico-emocionais ou sociais.
Ou seja, paradoxalmente , o mesmo
procedimento interno que trabalha para nos proteger, nos limita
e nos sabota.
Vamos pegar emprestada aqui, um
pouco da Psicologia Hindu para nos dar um subsídio filosófico: Em
primeiro lugar, se tanto as tradições orientais quanto as
xamânicas dizem que somos seres multidimensionais, isto quer
dizer que existimos simultaneamente em infinitos níveis, certo?
Na filosofia hindu, temos duas
formas de codificar as dimensões do ser humano: uma trina (os
Shariras, ou corpos) mais usada pelo Yoga e outra quíntupla
(os Koshas, ou envoltórios) mais usada pela Vedanta. São apenas
divisões de caráter didático, já que estas dimensões não são
lineares e tridimensionais, são holográficas.
Os Shariras, ou corpos, são 3: o
Sthula Sharira ou corpo denso (o corpo físico), o Sukshma
Sharira ou corpo sutil (o corpo de energia, o corpo emocional e
o corpo mental) e Karana Sharira ou corpo causal.
Karana Sharira se chama corpo
causal porque é nesse nível onde se localiza a causa da
ignorância (avidya). Mas é também neste nível que se localiza a
visão da Águia, da Testemunha, e que acontecem as canalizações e
as conexões mediúnicas. E este também é o nível que faz a
“interface” do estado de consciência separada com o estado da
Unidade Absoluta (Nirvana, Samadhi, Moksha, Satori).
Os Koshas, são chamados de
envoltórios (ou bainhas), porque são as camadas que
ilusoriamente prendem e condicionam o Espírito. São cinco:
-
Annamaya kosha, ou corpo físico
-
Pranamaya
kosha, o corpo de energia (onde normalmente atua a
Acupuntura, a Homeopatia, a Cromoterapia, o Reiki, etc. e
que os esoteristas chamam de duplo-etérico e os espíritas de
perispírito). Neste nível circulam as Pranavaha Nadis
(condutos energéticos que transportam o Prana)
-
Manomaya kosha, o corpo
psico-emocional. Neste nível circulam as Manovaha Nadis
(condutos de energia que transportam Ojas,
a energia mental. Ojas é a quintessência energética extraída
dos alimentos pelos Dhatus – os 7 tecidos corporais)
-
Vijñanamaya kosha, o corpo
psíquico
-
Anandamaya kosha, o corpo
psico-espiritual.
-
Vijñanamaya Kosha é onde opera
o discernimento, a capacidade de se escolher e discriminar
entre o que é real ou irreal.
Assim como o Karana Sharira,
Anandamaya kosha é a ponte, o degrau para o estado da Unidade.
O Sthula Sharira (bem como sua
correspondente Annamaya Kosha) está relacionado a Guna Tamas; o
Sukshma Sharira (Prananamaya, Mano Maya e Vijñanamaya Kosha)
está relacionado a Guna Rajas; e Karana Sharira (Anandamaya
Kosha) a Guna Sattwa. O complexo psíquico (que os hindus
chamam de Antahkarana, ou órgão interno) é formado por:
1. Buddhi, é a parte mais elevada
da mente. Num primeiro nível, Buddhi trabalha com o
discernimento, as escolhas e as opções. Desde as escolhas
inconscientes - como, por exemplo, as que faz o sistema nervoso
autônomo - passando pelas opções e escolhas conscientes do
dia-a-dia, até a mais elevada das formas de discernimento que é
o questionamento sobre o que é real e o que é irreal na
existência (que é o que os hindus chamam de Viveka). Em um nível
mais elevado de atuação, Buddhi é a mente testemunha (a visão
da águia), o nível da meditação e da neutralidade, onde não há
julgamento.
O Buddhi atua no nível de
Karana Sharira e Vijñanamaya kosha. Abarca também o
inconsciente. O trabalho da mente com os Guardiões e os Mantras
no Fogo Sagrado, ocorre neste nível.
2.
Manas é a mente pensadora.
Administra os estímulos que vem através da aferência dos
sentidos (Jñana Indriyas) e da atividade da memória (Chitt ,
conteúdos do consciente e do inconsciente), administra as
escolhas e opções de Buddhi, e produz os Vrittis (pensamentos,
movimentos mentais, mente racional) e as respostas psico-motoras
(Vasanas) através dos Karma Indriyas (órgãos de ação).
3. Ahamkara, o ego. Trabalha
em dobradinha com Manas na função de se manter a identificação
da Consciência com o estado ilusório de separatividade (maya). O
ego e a mente mantém a Consciência ilusoriamente identificada
com sua personalidade (que poderíamos chamar aqui de auto
imagem/persona ou Corpos Energéticos ou ainda vrittis/samskaras/vasanas)
e com as Gunas, os movimentos impermanentes da vida.
E como este “órgão interno“
trabalha ?
Quando os nossos sentidos apreendem
algum objeto, informação ou estímulo, dois mecanismos disparam
automaticamente: o corpo mental associa um nome (nama) e uma
forma (rupa) e o corpo emocional avalia se aquele determinado
objeto me atrai (raga) ou se eu o rejeito (dwesha) – bem no
estilo das pulsões “busca do prazer evitação da dor” freudianas.
Em outras palavras os sentidos
captam, a mente e o emocional enquadram e o ego identifica com
eu/meu.
Assim enquadramos toda a realidade
Una em pequenas unidades ilusoriamente separadas, mantemos a
ignorância da nossa natureza real, e ficamos vivendo
aprisionados em uma realidade construída por nós mesmos.
Se o estímulo ou informação que
recebemos através dos sentidos (jñana indriyas) é alguma coisa
muito forte e traumatizante, ou se por outro lado, são estímulos
ou informações que se repetem com periodicidade, isto vai
imprimir samskaras (impressões psico-emocionais) no
inconsciente, que vão por sua vez produzir vasanas (crenças,
hábitos, tendências e padrões) e vrittis (movimentos da mente,
pensamentos, atividade racional).
Algumas imagens:
1. Imagine que o seu complexo
psíquico é um lago: o reservatório em si é a mente (Manas); o
conteúdo – a água – é Chitta, a memória consciente e
inconsciente; o fundo do lago é o Ser, a Unidade coberta pela
“poeira” de Chitta que forma “bancos de areia” (samskaras) em
função dos movimentos internos e da superfície (vrittis); por
sua vez, os movimentos ondulatórios da superfície são os Vrittis
(pensamentos, atividade racional) cujos padrões são produzidos
pelo perfil topográfico do fundo (samskaras).
Quanto mais nivelado e liso estiver
o fundo, mais tranqüilas serão as águas da superfície.
2. Uma carruagem: Buddhi é o
condutor, Manas são as rédeas, Ahamkara é a carruagem e os
cavalos são os sentidos (indriyas).
3. Estou em um campo e de repente
vejo um touro enfurecido correndo em minha direção: os jñana
indriyas captam a imagem , Manas processa a informação (“vendo
um touro correndo”), Ahamkara identifica com o eu (“eu
estou vendo um touro”), Buddhi faz as escolhas (“eu estou vendo
um touro, que vai me pegar. Tenho que correr”), e os Karma
Indriyas executam a ação.
Ernani
Fornari (Dharmendra)
http://www.geocities.com/yogaterapia/
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