Resenha do livro Uma visão ayurvédica
da mente
por Rodrigo Gomes Ferreira
FRAWLEY, David. Uma Visão Ayurvédica da Mente: a
cura da consciência. Tradução de Alípio Correia de
Franca Neto.
Título do original: Ayurveda and the Mind: the
healing of consciousness (1996).
256 p. São Paulo: Editora Pensamento, 2000.
Na busca por compreensão dos conceitos desenvolvidos
há milhares de anos na Índia, muitas vezes, nos
perdemos ora na linguagem hermética dos textos
antigos em sânscrito, ora pela falta de boas
“traduções” que contextualizem estes ensinamentos em
nossos dias. No ayurveda não é diferente, e Frawley
parece ser uma exceção. Talvez seja um dos poucos
não-indianos a compreender profundamente os vários
campos de conhecimento ligados pela tradição védica
em que o ayurveda está incluído, e ser capaz de
oferecer uma lúcida apresentação mostrando suas
inter-ligações.
O ayurveda é a medicina da mente e do corpo da
Índia, e um dos sistemas de cura mais antigos do
mundo. Este livro analisa principalmente o aspecto
psicológico do ayurveda, com ensinamentos derivados
dos textos clássico, porém numa tentativa de tornar
os ensinamentos relevantes ao mundo moderno. É uma
parte dos estudos de Frawley, que pode ser
complementada com outros livros seus: Ayurvedic
Healing: a comprehensive guide, Beyond the Mind,
Tantric Yoga and the Wisdom Goddesses: Spiritual
Secrets of Ayurveda – todos ainda sem tradução para
o português.
Como o próprio autor coloca, é um livro mais técnico
e profundo sobre ayurveda se comparado às obras
populadoras que ele tem conhecimento. Talvez um dos
poucos mais acessíveis na apresentação da questão
psicológica desta medicina indiana. Porém, mesmo
sendo uma proposta dirigida aos que querem
informações mais profundas, Frawley alega que não é
necessário conhecimento prévio sobre o assunto. De
fato, há uma introdução aos conceitos básicos do
ayurveda, mas acho interessante uma pequena noção do
assunto para que se aproveite melhor a riqueza do
conteúdo; até por não ser comum encontrar muita
profundidade sobre a visão ayurvédica da mente.
O livro se organiza em quatro grandes partes, com
mais dois apêndices. A primeira parte é uma
introdução aos conceitos básicos do ayurveda, como
os doshas (vata, pitta, kapha), a contra-partida
sutil dos doshas (prana, tejas, ojas), os gunas (sattva,
rajas, tamas), e os elementos (éter, ar, fogo, água,
terra). As explicações são bastante generosas e
trazem exercícios para uma observação prática dos
conceitos pelo leitor para incorporar melhor os
ensinamentos. Já nesta parte há um direcionamento
para as questões psicológicas com explicações das
relações entre os cinco elementos e a mente, e
também uma prática para a identificação de sua
natureza mental.
Com esta introdução, a segunda parte continua usando
os conceitos básicos para uma explicação da
energética da consciência. Busca-se clarear questões
como: o que é a consciência? Por meio de quê nós
pensamos, sentimos e percebemos? São apresentados os
conceitos, a composição, e as funções, de cada
aspecto do complexo mental - citta (a consciência
condicionada), buddhi (a inteligência), manas (a
mente exterior), e ahankara (o ego). Na exposição há
sempre riqueza das inter-relações entre os
conceitos, bem como um ponto de vista prático;
colocando, por exemplo, o que seria o
desenvolvimento apropriado de cada um destes
aspectos, e um exercício para se compreender os
diversos níveis da mente.
A terceira parte aborda as terapias ayurvédicas para
a mente. O autor coloca que estas são sempre
multi-facetadas, visando melhorar o desenvolvimento
espiritual e promover o bem-estar da mente. Há
explicações sobre o aconselhamento ayurvédico e a
mudança comportamental dentro de seus fatores
físicos, psicológicos, sociais, e espirituais.
Seguindo o foco nas questões psicológicas, é
apresentado o ciclo de nutrição para a mente, dando
ênfase ao papel das impressões numa “dieta mental”.
Frawley também aborda modalidades exteriores de
terapia como importantes, explicando sobre o regime
alimentar, ervas, massagem e pañca karma (principal
método ayurvédico de purificação física). As
terapias sutis, segundo autor, são os tratamentos
sensoriais mais importantes do ayurveda, podendo
mudar nossa consciência mental e emocional. Trata-se
da terapia das cores, das pedras preciosas, e dos
aromas. Para finalizar o capítulo, há uma abordagem
sobre o poder de cura dos mantras como uma terapia
para o nível espiritual, o mais sutil na cura.
Frawley começa a última parte do livro dizendo que
“o bem-estar mental e emocional não é um fim em si
mesmo. É o começo da vida espiritual” (p.185). E
“por essa razão o ayurveda sempre nos leva ao Yoga”
(p.187). É o ponto de vista que demonstra uma clara
função do ayurveda, e acho que também permite uma
fluída conexão na exposição da relação desta ciência
com o Yoga. Outro exemplo, que o autor coloca desta
inter-relação, é que a própria visão da consciência
e muitas das modalidades de tratar a mente no
ayurveda derivam do Yoga. Escrevendo sobre o aspecto
espiritual, o autor discorre bastante sobre a
importância da devoção e do auto-conhecimento. Logo
em seguida apresenta o “método óctuplo da Yoga”, que
é o ashtanga yoga de Patañjali. Todos os “anga”
(partes) são explicados fazendo uma relação entre os
conceitos ayurvédicos. Também há técnicas aplicadas;
como de pratyahara e dharana. Esta quarta parte
termina com conceitos de samadhi, distinções entre
diferentes tipos – com ou sem forma, espirituais ou
não espirituais, diferentes níveis etc.
Os apêndices complementam fornecendo tabelas
explicativas – os três corpos, os cinco invólucros,
os sete níveis do universo, os sete chakras, os
cinco pranas, e uma tabela de funções da mente e um
diagrama da evolução cósmica – bem como notas sobre
conceitos e idéias usados no decorrer do livro,
glossário sânscrito (sem devanagari, nem
transliteração), glossário de ervas, bibliografia, e
fontes de estudo.
O livro demonstra bem a habilidade de Frawley em
tecer ligações entre conceitos de diferentes campos
de conhecimentos indianos. Neste caso,
principalmente entre o ayurveda e o Yoga. Também é
interessante por fornecer uma visão pouco abordada
do ayurveda, e de grande relevância para yogis que
queiram sincronizar diferentes saberes aplicados ao
sadhana. Mesmo com um discurso fluído, é também
denso; o que pode pedir mais do que uma leitura
trivial. Porém é uma boa fonte para o estudo, e que
pode ajudar no pensamento integrado entre diferentes
tradições védicas, aplicados na prática.
A indicação fica, como sugere o próprio autor, para
psicólogos e terapeutas. Yogis que também se
interessam por ayurveda também pode apreciar,
principalmente para se trazer boas aplicações
terapêuticas à prática de Yoga.
Gomes Ferreira
trabalha com os
Cadernos de Yoga.
Essa sua resenha foi originalmente publicada nas
páginas 83 a 86 da edição
nº 01, do Verão de 2004,
dos
Cadernos de Yoga.
Artigo retirado do web site:
http://www.yoga.pro.br/
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