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Os elementos e os
doshas
A reflexão sobre o processo da Criação do Universo, tem
mobilizado a Humanidade desde sempre. Todas as Mitologias, de
todas as culturas, falam abundante e detalhadamente sobre este
assunto, tão rico em conhecimento simbólico.
Em qualquer que seja a tradição que
se pesquise, pode se perceber as mais diversas leituras e
versões deste processo – a Criação - onde o mais sutil, o
Tao, o Absoluto, vai se precipitando – do infinito ao
finito, do abstrato ao concreto, do absoluto ao relativo - até
se manifestar como matéria densa aprisionada em uma dimensão
tridimensional de relatividade (tempo/espaço) cuja principal
característica é estar em contínuo movimento, sempre
impermanente, sempre mutante.
E esta matéria densa, estágio final
do processo da Criação, é formada em ultima análise, por
elementos. As matrizes da matéria.
Nossa cultura reconhece quatro : Ar
(Vayu), Fogo (Agni), Água (Apas) e Terra (Prittivi). Os hindus
falam de cinco, incluindo o Éter (Akasha - Espaço). E os
chineses também falam de cinco, incluindo Madeira e Metal.
O fato, é que além da importância
que os elementos tem como fatores constitutivos da matéria
física, estes também tem um rico e complexo simbolismo,
representando qualidades universais que atuam em todos os níveis
da nossa existência.
O Yoga, o Ayurveda
e a Medicina Chinesa, e também as culturas xamânicas,
estruturaram seus sistemas tendo como alicerces o conhecimento
dos elementos.
O Ar, por exemplo,
no seu sentido mais equilibrado, fala da leveza, do frescor, da
rapidez, da respiração, das idéias e reflexos rápidos, da
capacidade de mudar rapidamente e de sacudir a poeira da energia
estagnada.
No seu sentido mais desequilibrado,
o Ar fala da dispersão, da secura, da ansiedade, dos medos, da
inconstância, da “cabeça à mil”, da frieza afetiva e da
dificuldade de expressar as emoções e os sentimentos. Falta de
aterramento e de raiz.
O Fogo, na sua
polaridade equilibrada, fala da capacidade de processar e
digerir (desde alimentos até emoções), de transmutar a sombra em
Luz, de poder pessoal saudável e ego bem equilibrado, de
criatividade. Fala da capacidade de construir (desde coisas até
a própria história), de reciclar.
Na sua polaridade desequilibrada, o
Fogo é a raiva destruidora, o ego inflado e tirânico, a
volubilidade, a indigestão.
No Xamanismo o Fogo é o Avô, com
quem se aprende as lições das outras dimensões.
Os índios dizem que quando estamos
em torno do Fogo, nossos corações estão no mesmo nível e todos
neste momento são Um.
Os indianos, que também fazem
muitos rituais com Fogo, dizem que o Fogo físico representa o
Ser Eterno, Absoluto, e as coisas que são oferecidas ao Fogo (ghee,
cereais, ervas) simbolizam nosso ego que é oferecido por nós
para ser dissolvido no Fogo Universal.
A Água, em seu
lado equilibrado, fala do livre fluir das emoções, da alegria,
do “jogo de cintura” e da flexibilidade. Fala do feminino, da
juventude e da limpeza (em todos os sentidos).
Em seu lado desequilibrado, a Água
pode expressar uma emocionalidade desequilibrada, (tendendo não
para a raiva, como no Fogo, mas para o “dramalhão”), o movimento
de “ir na corrente” se deixando levar pela correnteza.
Mas, se por outro lado, as águas
são represadas, ou vazam por algum lugar, ou a represa pode
estourar.
Finalmente, a Terra,
que em sua qualidade mais equilibrada, expressa estrutura,
aterramento, enraizamento, objetividade, determinação, memória,
saúde física, prudência, capacidade de lidar bem com as questões
materiais.
No desequilíbrio, o elemento Terra
expressa imobilidade, dificuldade de mudar. Tristeza , apego,
avareza, egoísmo, medo, peso, depressão , baixa auto-estima e
preguiça.
Muitas foram as formas que os povos
antigos desenvolveram para compreender, sistematizar e
instrumentalizar este conhecimento de modo a que ele fosse útil
no processo de auto-conhecimento e crescimento.
No universo hindu, os elementos
(chamados de Mahabhutas) se relacionam com as Gunas,
com os Chakras, e também com os Doshas, que é
o que vamos tratar aqui.
A medicina tradicional hindu, a
Medicina Ayurvédica, trabalha a partir do levantamento de uma
tipologia básica que irá nortear todo o processo terapêutico.
Esta tipologia baseia-se nos cinco elementos, e expressa como
estes elementos estão atuando e se movimentando na fisiologia
psico-física humana.
E o Ayurveda estabeleceu
três tipos característicos: Vata,
expressão dos elementos Espaço e Ar; Pitta,
Fogo e Água e Kapha, Terra e Água.
Todos nós nascemos com os três Doshas formando uma
configuração que é pessoal e intransferível. E em cada um de nós
os elementos atuam e influem de maneiras absolutamente
singulares.
Pense bem, o que tem mais no
Universo é espaço, não é mesmo? Além do espaço sideral em si,
existe um enorme espaço inter-atômico na matéria do qual a gente
não se apercebe.
O astrofísico Carl Sagan
dizia que se pudéssemos espremer todo o planeta Terra de modo a
que não houvesse mais nenhum espaço inter-atômico, toda a
matéria da Terra caberia em um dedal...
E, por outro lado, o elemento mais
quantitativamente presente na esfera do nosso planeta é o Ar.
Isto configura Vata
como o Dosha principal, no sentido de ser aquele que
desequilibra os outros Doshas justamente pela sua
rapidez e volatilidade. Veja lá em cima no elemento Ar, suas
qualidades. Vata representa exatamente isso: como este
Espaço e este Ar se movimentam em você e que padrões de
desequilíbrio eles produzem e mantém.
No nosso corpo, Vata
gerencia a mente, o sistema nervoso, a respiração, os ossos e
articulações, os braços e as mãos, a dor, os movimentos
peristáltico, cardíaco e pulmonar.
Desequilíbrios de Vata
trazem stress, ansiedade, medo, má memória, prisão de ventre,
problemas reumáticos, insônia, anorexia alimentar.
O Dosha Vata está
relacionado a Guna Rajas(Fogo/Ar) e aos
chakras Anahata (Ar) e Vishuddha (Espaço).
Depois temos o Fogo. O Fogo que
cozinha, que consome, que aquece, que ilumina, que queima e que
transmuta.
Em nós este Fogo é
Pitta. Pitta é o fogo digestivo que
trabalha os alimentos, é o fogo que mantém nossa temperatura a
36,5º, é o fogo que digere as emoções, é a sensualidade e a
energia sexual, é a alegria e a coragem, é o poder de construir,
de ser inteligente, objetivo e vitorioso.
Em nosso corpo Pitta
gerencia a digestão (especialmente intestino delgado), o sistema
cardio- vascular, as pernas e os pés, os olhos e a visão, as
trocas gasosas nos pulmões, a assimilação dos alimentos, a
atividade enzimática nas células.
Desequilíbrios de Pitta
acarretam irritabilidade, impaciência, raiva e violência,
intolerância, teimosia, bulimia, distúrbios sexuais, neuroses
compulsivas, problemas gástricos, visuais, dermatológicos e
cardio-vasculares.
O Dosha Pitta está
relacionado a Guna Rajas (Fogo/Ar) e ao
Chakras Swadhisthana (Água) e Manipura (Fogo).
Finalmente temos a Água e a Terra.
Lembre que 2/3 do planeta e 2/3 do nosso corpo são feitos de
Água!
A Água e a Terra em movimento em
nosso sistema psico-físico chama-se Kapha.
Kapha fala do que há de
mais material em nós, em todos os sentidos.
Gerencia a estrutura física e os
líquidos corporais.
Em desequilíbrio leva à preguiça,
ao desânimo, tristeza, depressão, avareza, excesso de apego,
excesso de sono, bulimia, obesidade (retenção de gordura e
liquido) e diabetes.
O Dosha Kapha está relacionado a
Guna Tamas (Terra/Água) e aos Chakras Muladhara (Terra) e
Swadhisthana (Água).
Procure se observar e se sentir a
partir desta ótica dos Doshas. Eles não são meros
rótulos, até porque estar em constante movimento e mutação é a
característica inerente aos mesmos. Aonde e em que aspectos de
você (no físico, no emocional e no psicológico) prevalecem os
três Doshas? Perceba as mudanças ao longo do dia.
E trazendo o assunto para o Fogo
Sagrado, procure observar os corpos energéticos em desequilíbrio
segundo a ótica dos Doshas. De onde vem estes
desequilíbrios? Que características e qualidades eles tem? Que
tipo de qualidade está no pólo oposto?
Faça o mesmo exercício com as
Gunas e os Chakras, que juntamente com os
Doshas (e mais uma infinidade de sistemas dialéticos e
conceituais), se apresentam como excelentes sistemas
codificadores (e explicadores) do grande movimento universal, e
de como este movimento e a Consciência subjacente a ele atuam em
nós e em todo o Universo, e o que podemos fazer para nos manter
em equilíbrio utilizando estes mapeamentos.
Ernani
Fornari (Dharmendra)
http://www.geocities.com/yogaterapia/
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