por João Carlos Barbosa Gonçalves,
da apostila do Curso sobre o HYP:
Luz sobre o Yoga e sua filosofia
Instaurando a mente (manas) no centro da śakti e
a śakti no centro da mente,
ao ter a mente observada pela mente, há de
concentrar-se sobre o estado supremo:
Vazio por dentro (śūnya) e vazio por fora – como
um jarro no céu
e cheio (pūrna) por dentro e cheio por fora –
como um jarro no oceano.
HYP 4.54-55
O
Hathayogapradīpikā é uma obra que foi composta em
língua sânscrita ao redor do século XV d.C. e contém
ensinamentos que fazem parte de uma tradição que foi
mantida por adeptos do Yoga denominados como
nātha-siddha, nātha-yogin, ou simplesmente nātha ou
siddha. Seu autor é chamado Svātmārāma, e, devido a
fazer parte dessa tradição, ele apresenta a
composição do livro como um conhecimento que lhe foi
transmitido, e não como sua criação. Por essa razão,
Svātmārāma faz mínima referência a si mesmo, como é
muito comum em textos da literatura sânscrita, pelo
fato de o conhecimento ser considerado como um bem
pertencente a uma sucessão discipular e não
simplesmente como produção ou sistematização
individual. Portanto, na tradição indiana, a
ausência de uma biografia que personalize o autor de
um tratado de Yoga faz com que a filosofia e as
técnicas nele contidos sejam vistos como uma fonte
que liga o discípulo, através da linhagem de mestres,
às origens primordiais do conhecimento.
No
Hathayogapradīpikā, Svātmārāma atribui a origem de
seus ensinamentos ao Ādinātha, nome que significa
“nātha primordial”, ou “Senhor primordial”. A
palavra nātha quer dizer, ao pé da letra, “senhor”,
“dono”, “protetor”, e é empregada para nomear muitos
deuses do hinduísmo. Nesse caso específico, trata-se
do deus Śiva, que é considerado o primeiro yogin, e,
por conseqüência, o primeiro mestre de Yoga. O deus
Śiva é, dessa forma, o mestre que está no topo de
toda a sucessão discipular que passa por Svātmārāma,
no século XV d.C., e vem até os dias de hoje.
No
que se refere ao Haṭha Yoga, apenas uma obra
anterior ao Haṭhayogapradīpikā chegou aos dias de
hoje, ela é chamada de Gorakṣaśataka, e é atribuída
a um yogin de nome Gorakṣa. A tradução do título
seria a seguinte: “As centúrias de Gorakṣa” ou “os
cem versos de Gorakṣa”. Muito do que está exposto no
texto de Gorakṣa pode ser encontrado no de
Svātmārāma. O primeiro foi composto ao redor do
século X d.C. e, como o nome diz, contém cerca de
100 versos. O Hathāyogapradīpikā, cerca de cinco
séculos mais jovem, contém cerca de 400 versos.
Certamente esses textos não eram os únicos a versar
sobre o Haṭha Yoga. São dois exemplares que foram
mantidos tanto em tradição oral como através de
manuscritos. É possível que ainda haja chance de
encontrar manuscritos de outros textos, bem como é
muito provável o fato de que, neste momento, estejam
sendo passados adiante, na viva tradição dos nātha,
obras de mesmo teor e antigüidade que o
Gorakṣaśataka e o Haṭhayogapradīpikā. Essas obras
são, portanto, um conhecimento vivo, uma filosofia
de vida e um “bem precioso”, segundo palavras do
próprio Svātmārāma. Quem quer que esse yogin tenha
sido, o importante não é saber quem ele foi, mas a
tradição que ele representa e o quanto ele próprio
reverencia o privilégio de ter podido se aproximar
dos saberes que essa tradição carrega. O Haṭha Yoga
pode transformar o homem em um siddha, e isso lhe
confere muito respeito e admiração, mas não
necessariamente a veneração que o Ocidente ensinou
que os devotos devem dar a um santo, por exemplo. As
relações são estabelecidas de outra forma, não é o
mestre que transforma, mas é somente com a presença
dele que a tranformação acontece; as palavras do
mestre não são irretocáveis, mas podem ajudar o
discípulo a perceber suas próprias verdades
irretocáveis; e, acima de tudo, o discípulo deve ter
consciência de que sua responsabilidade é a de
tornar-se um dia tão admirável e tão insubstituível
quanto seu mestre, dando, para essa grande meta,
todo o empenho possível. Essa é a base que sustenta
a tradição, que pode ser resumida da seguinte forma:
não há conhecimento sem o mestre, a experiência
pessoal vale acima de tudo, e essa relação, quando
tem êxito, produz uma transformação.
Essa
ordem de coisas, além de dar grande valor ao yogin
realizado – isto é, os “santos” indianos –, confere
ao ser humano comum a percepção de que seu potencial
é muito maior do que ele pode imaginar. Segundo a
perspectiva do Yoga, as pessoas são educadas e
condicionadas para acreditar que são algo muito
limitado, incomparavelmente pequeno, em relação a
tudo aquilo que sua verdadeira natureza pode
manifestar. É nesse sentido que pode ocorrer a
transformação: os níveis psíquicos e supra-psíquicos,
quando são descondicionados, deixam de se
identificar com um projeto de ser humano apequenado
e raso, para fazer a identificação com a
grandiosidade de seu ser. Ou seja: se bem sucedido,
o Yoga faz a pessoa deixar de acreditar que seus
limites são menores do que na realidade são.
Segundo esse modo de pensar, o Yoga é definido, em
sânscrito, da seguinte forma:
samyogo yoga ity
ukto jīvātmaparamātmanoḥ |
“Afirma-se que
Yoga é conjunção: entre o jīvātman e o
paramātman.”
Ātman
é o princípio que pode ser entendido como alma,
espírito, si-mesmo, self, ser essencial, eu-profundo,
etc. O ātman é um só. Mas, quando é concebido do
ponto de vista das limitações que se adquirem na
vida, fala-se em jīvātman. E, quando é concebido,
para além desses limites, fala-se em paramātman.
Portanto, traduzindo a frase por completo, assim se
diz:
“Afirma-se que Yoga é conjunção: entre a essência
individual e a essência absoluta.”
A
partir dessa máxima, fica muito evidente o
significado do nome próprio Svātmārāma, que é
constituído por três vocábulos: sva-ātman-rāma.
Traduzindo: “deleite com a própria essência”, ou
“aquele que se alegra com o próprio eu”. Isto é: o
Haṭhayogapradīpikā tem no nome dado ao seu autor a
sugestão de alguém que alcançou a conjunção prevista
pelo Yoga. No contexto do Haṭha Yoga, o ato de
deleitar-se com seu próprio ser é uma experiência
grandiosa, em que os limites individuais são
diluídos em nome da identificação com a realidade
que é chamada de absoluta (paramātman).
Não é
à toa que o Haṭha Yoga é, na Índia, ao mesmo tempo,
prestigiado e desprestigiado. Na tradição dos nātha,
as práticas de Yoga, e seu aparato filosófico,
chegaram a lhes imprimir a imagem de anti-sociais. A
primeira razão é que sua visão do potencial
ilimitado do ser humano fazia necessariamente
descrer de valores sociais e religiosos do
bramanismo, muito dependente da organização social,
que divide a sociedade funcional e hierarquicamente.
A segunda razão, conseqüência da primeira, é o fato
de que o desprezo, por parte dos nātha, em relação a
valores sociais que inferiorizavam alguns grupos da
população, era muito atraente para aqueles que se
sentiam depreciados pela cultura dominante. Por essa
razão, até hoje, muitos grupos dominantes
desprestigiam, enquanto que certos grupos dominados
sentem-se atraídos.
Quanto ao nome Haṭhāyogapradīpikā, a expressão
yogapradīpā aparece em um comentário feito sobre o
Yogasūtra de Patañjali e quer dizer “luz do Yoga”,
no sentido de que a luz gerada pelo Yoga permite o
adepto superar certos obstáculos surgidos em seu
caminho. Os obstáculos referidos são uma série de
poderes supra-normais que levariam o yogin a
permanecer em estados de consciência que, apesar de
elevados, são muito inferiores aos que poderá
atingir se carregar consigo a luz do Yoga. A palavra
pradīpikā é um diminutivo que significa lamparina e
cria, no título, os sentidos “lanterna do Haṭha
Yoga” ou “lanterna sobre (que esclarece) o Haṭha
Yoga”.
Bibliografia
MICHAËL, Tara. Haṭha-Yoga-Pradīpikā – traité de
Haṭha-yoga. Paris: Fayard, 2006.
http://www.om.pro.br
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