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João Carlos Barbosa

 

A dança de Śiva, na Īśvaragītā, do Kūrmapurāṇa (2.5.1-28, 42)

Depois que falou com os yogin, o divino Parameśvara [senhor supremo] dançou, mostrando a forma sublime de sua grandiosa natureza. Eles viram o grande deus, o soberano, um imenso tesouro de luz, próximo a Viṣṇu, dançando no céu imaculado. Aqueles yogin, de mente controlada, conhecedores da essência do Yoga, realmente viram nos ares o senhor de todas as criaturas. Pelos sábios, o senhor de todas as criaturas foi visto dançando sobre si mesmo, já que é por meio dele que o mundo é construção de māyā, e por meio dele também o universo é posto em movimento. De fato, eles viram o senhor da vida, cujos pés possuem a beleza da flor de lótus, que, sendo rememorados em sua dança, removem o medo e a ignorância. Serenos, pacíficos, bons controladores do alento e inspirados pela devoção, todos testemunharam aquele a quem o adepto do Yoga chama de luminosidade. Eles viram o grandioso Rudra nos céus, o libertador, generoso com os devotos, que livra rapidamente da ignorância, o deus na aparição de mil cabeças, mil pés, mil braços, cabelos emaranhados e uma coroa em forma de meia lua, com as vestes de proteção feitas da pele do tigre. Na majestosa mão, o poder do tridente, na outra mão, um bastão, com três olhos, com o resplendor do Sol, da Lua e do Fogo. Eles viram o deus que é a causa de tudo, o soberano dançante, duro de mirar, com presas terríveis, com o brilho de milhares de sóis. Aquele que, por meio da própria luz, faz do ovo de Brahman1 tudo o que existe, e que, ao emitir o fogo tenebroso, queima completamente o mundo. Aquele que é o Yoga supremo, o deus dos deuses, o senhor dos animais, o soberano beatífico, a luz eterna. O deus do tridente, dos grandes olhos, a cura dos males da vida, que é a essência do tempo, o destruidor do tempo, o grande soberano, o deus dos deuses. O esposo de Umā, com o grande olho, a suprema manifestação do êxtase do Yoga. A fonte do Yoga e do desprendimento, o eterno Yoga do saber. A imponência e a dádiva perpétuas, o alicerce do dharma, de alcance remoto, que é reverenciado por Mahendra [Indra] e Upendra [Viṣṇu], que é louvado pelas hostes dos grandes inspirados. Aquele que reside no coração dos yogin, que está envolvido igualmente pela māyā e pelo Yoga. Por um instante, aqueles que ensinam brahman viram a matriz do mundo, Nārāyaṇa [homem primordial], aquele que traz a saúde. E assim presenciaram a forma do soberano, aquele que é o próprio Nārāyaṇa. E aqueles sábios que ensinam brahman contemplaram em si o próprio ātman na mais completa realização. Sanatkumāra, Sanaka, Bhṛgu, também Sanātana e Sanandana; assim como Raibhya, Aṅgiras e Vāmadeva; Śukra, o grande inspirado Ratri, Kapila e Mārīci, ao verem Rudra, o maior soberano do universo, com o lado esquerdo habitado pelo deus que tem o lótus no umbigo [Viṣṇu], meditaram em sua presença dentro do coração, várias vezes fizeram reverência com a cabeça e com as palmas das mãos unidas sobre a testa. E, pronunciando a sílaba Oṃ, contemplaram o deus instaurado em seus âmagos, no coração. Com a consciência preenchida pela mais elevada satisfação, o adoraram com os dizeres inspirados por brahman.

Disseram os sábios:
Tu, que és o único soberano, o homem dos primórdios, o senhor dos alentos [prāṇa], Rudra, que transmite o Yoga eterno, a ti reverenciamos nós todos, em nosso coração, és Pracetas2, és o purificador, és formado de brahman. Os sábios que, pacificados e abrandados, ao terem meditado sobre o ātman imutável dentro de seus próprios corpos, e perceberam a ti como a pura matriz de brahman, de cor radiante, o consideram como o mais inspirado dos mais inspirados, e muito além de tudo isso. A partir de ti, a origem do mundo foi gerada, tu és o âmago do universo, és o átomo, menor do que o menor e maior do que o maior – assim é que os sabedores declaram a ti como brahman. O feto dourado [hiraṇyagarbha]3 é derivado de ti, és o ātman essencial do mundo, nasceste como o homem primordial. Tudo o que foi criado, o foi junto de ti, de acordo com teu desígnio. Todos os Vedas são criados por ti e, ao final, são tomados também por ti. Nós o vemos dançando, a razão de ser do mundo, e, em nossos próprios corações, estás habitando. Por ti, essa roda de brahman gira, tu que és feito de māyā, és o único senhor dos mundos. Nós o reverenciamos como protetor, és o ātman do Yoga enquanto danças como dançarino divino. A ti, nós contemplamos dançando em meio aos céus elevados! De tua índole grandiosa nós nos recordamos! És o ātman de todos, estás presente em tudo! És o gozo de brahman, que é sempre vivenciado! És a sílaba Oṃ, o som semente [bīja] da libertação, eterno, guardado no mundo material [prakṛti]. Aqui os sábios proclamam o Senhor, que irradia com luz própria, como a realidade por excelência. (...)

Vyāsa disse:
Assim propiciado, o divino Kapardin [cujo cabelo é desgrenhado], que monta o búfalo, tomou sua forma suprema e assumiu seu estado original.

Tradução de João Carlos Barbosa Gonçalves,
publicada no Cadernos de Yoga, 14ª edição no outono de 2007.

 

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