A dança
de Śiva, na Īśvaragītā, do Kūrmapurāṇa (2.5.1-28,
42)
Depois que falou com os yogin, o divino Parameśvara
[senhor supremo] dançou, mostrando a forma sublime
de sua grandiosa natureza. Eles viram o grande deus,
o soberano, um imenso tesouro de luz, próximo a
Viṣṇu, dançando no céu imaculado. Aqueles yogin, de
mente controlada, conhecedores da essência do Yoga,
realmente viram nos ares o senhor de todas as
criaturas. Pelos sábios, o senhor de todas as
criaturas foi visto dançando sobre si mesmo, já que
é por meio dele que o mundo é construção de māyā, e
por meio dele também o universo é posto em movimento.
De fato, eles viram o senhor da vida, cujos pés
possuem a beleza da flor de lótus, que, sendo
rememorados em sua dança, removem o medo e a
ignorância. Serenos, pacíficos, bons controladores
do alento e inspirados pela devoção, todos
testemunharam aquele a quem o adepto do Yoga chama
de luminosidade. Eles viram o grandioso Rudra nos
céus, o libertador, generoso com os devotos, que
livra rapidamente da ignorância, o deus na aparição
de mil cabeças, mil pés, mil braços, cabelos
emaranhados e uma coroa em forma de meia lua, com as
vestes de proteção feitas da pele do tigre. Na
majestosa mão, o poder do tridente, na outra mão, um
bastão, com três olhos, com o resplendor do Sol, da
Lua e do Fogo. Eles viram o deus que é a causa de
tudo, o soberano dançante, duro de mirar, com presas
terríveis, com o brilho de milhares de sóis. Aquele
que, por meio da própria luz, faz do ovo de Brahman1
tudo o que existe, e que, ao emitir o fogo tenebroso,
queima completamente o mundo. Aquele que é o Yoga
supremo, o deus dos deuses, o senhor dos animais, o
soberano beatífico, a luz eterna. O deus do tridente,
dos grandes olhos, a cura dos males da vida, que é a
essência do tempo, o destruidor do tempo, o grande
soberano, o deus dos deuses. O esposo de Umā, com o
grande olho, a suprema manifestação do êxtase do
Yoga. A fonte do Yoga e do desprendimento, o eterno
Yoga do saber. A imponência e a dádiva perpétuas, o
alicerce do dharma, de alcance remoto, que é
reverenciado por Mahendra [Indra] e Upendra [Viṣṇu],
que é louvado pelas hostes dos grandes inspirados.
Aquele que reside no coração dos yogin, que está
envolvido igualmente pela māyā e pelo Yoga. Por um
instante, aqueles que ensinam brahman viram a matriz
do mundo, Nārāyaṇa [homem primordial], aquele que
traz a saúde. E assim presenciaram a forma do
soberano, aquele que é o próprio Nārāyaṇa. E aqueles
sábios que ensinam brahman contemplaram em si o
próprio ātman na mais completa realização.
Sanatkumāra, Sanaka, Bhṛgu, também Sanātana e
Sanandana; assim como Raibhya, Aṅgiras e Vāmadeva;
Śukra, o grande inspirado Ratri, Kapila e Mārīci, ao
verem Rudra, o maior soberano do universo, com o
lado esquerdo habitado pelo deus que tem o lótus no
umbigo [Viṣṇu], meditaram em sua presença dentro do
coração, várias vezes fizeram reverência com a
cabeça e com as palmas das mãos unidas sobre a testa.
E, pronunciando a sílaba Oṃ, contemplaram o deus
instaurado em seus âmagos, no coração. Com a
consciência preenchida pela mais elevada satisfação,
o adoraram com os dizeres inspirados por brahman.
Disseram os sábios:
Tu, que és o único soberano, o homem dos primórdios,
o senhor dos alentos [prāṇa], Rudra, que transmite o
Yoga eterno, a ti reverenciamos nós todos, em nosso
coração, és Pracetas2, és o purificador, és formado
de brahman. Os sábios que, pacificados e abrandados,
ao terem meditado sobre o ātman imutável dentro de
seus próprios corpos, e perceberam a ti como a pura
matriz de brahman, de cor radiante, o consideram
como o mais inspirado dos mais inspirados, e muito
além de tudo isso. A partir de ti, a origem do mundo
foi gerada, tu és o âmago do universo, és o átomo,
menor do que o menor e maior do que o maior – assim
é que os sabedores declaram a ti como brahman. O
feto dourado [hiraṇyagarbha]3 é derivado de ti, és o
ātman essencial do mundo, nasceste como o homem
primordial. Tudo o que foi criado, o foi junto de
ti, de acordo com teu desígnio. Todos os Vedas são
criados por ti e, ao final, são tomados também por
ti. Nós o vemos dançando, a razão de ser do mundo,
e, em nossos próprios corações, estás habitando. Por
ti, essa roda de brahman gira, tu que és feito de
māyā, és o único senhor dos mundos. Nós o
reverenciamos como protetor, és o ātman do Yoga
enquanto danças como dançarino divino. A ti, nós
contemplamos dançando em meio aos céus elevados! De
tua índole grandiosa nós nos recordamos! És o ātman
de todos, estás presente em tudo! És o gozo de
brahman, que é sempre vivenciado! És a sílaba Oṃ, o
som semente [bīja] da libertação, eterno, guardado
no mundo material [prakṛti]. Aqui os sábios
proclamam o Senhor, que irradia com luz própria,
como a realidade por excelência. (...)
Vyāsa
disse:
Assim propiciado, o divino Kapardin [cujo cabelo é
desgrenhado], que monta o búfalo, tomou sua forma
suprema e assumiu seu estado original.
Tradução de João Carlos Barbosa Gonçalves,
publicada no Cadernos de Yoga, 14ª edição no outono
de 2007.
http://www.om.pro.br
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