Episódio da dança de Kṛṣṇa junto das pastoras -
Viṣṇupurāṇa (livro 5, cap. 13)
Ao
terem visto a montanha Govardhana1 sustentada por
ele, depois que Śakra2 partiu, os pastores falaram
alegremente a Kṛṣṇa, agente infatigável: (1)
– Ó
moço de grandes-braços, pelo senhor, com o feito de
levantar do monte, fomos protegidos daquele grande
perigo, e foi também nosso gado protegido pelo
senhor. (2) Essa brincadeira de criança é desmedida,
tua condição como pastor é intolerável, o ato do
senhor é divino. Conta o que és, menino. (3) Kāliya
foi subjugado na água; Pralamba3,
derrotado; o Govardhana foi erguido: nossas mentes
estão relutantes. (4) Verdadeiramente suplicamos aos
pés de Hari, ó tu que tens passos incomensuráveis.
Desde que presenciamos tua potência, não o
consideramos mais como um homem. (5) Presenciamos
também teu afeto por Vraja4, pelas mulheres, pelas
crianças, ó Keśava5. Conseguiste realizar uma
façanha, que semelhante nem mesmo pelos trinta
deuses. (6) Quando se concebe tua infantilidade e
tua força, com origem semelhante à nossa, ó Kṛṣṇa,
ātman infinito, isso traz perplexidade. (7) Deus,
demônio, yakṣa ou gandharva6. O que isso importa se
és nosso amigo? Louvor a ti! (8)
Grande sábio, tendo os pastores dito isto, Kṛṣṇa
ficou quieto por um instante, um pouco magoado, mas
disse então: (9)
– Ó Pastores, se não causa vexame minha amizade, se
sou louvável, qual o motivo para vossa inquietação?
(10) Se tendes afeto por mim, se vos sou louvável,
que vossa mente me compreenda como parente. (11) Não
sou deus, nem demônio, nem gandharva ou yakṣa: sou
nascido vosso parente e não há porque pensar de
outra forma! (12)
Ó bem
aventurado, assim ouvindo a fala de Hari, enquanto
ele estava zangado, os pastores foram silenciosos de
lá para a floresta. (13) Kṛṣṇa, vendo o céu
imaculado, o resplendor da Lua de outono, os lótus
abertos que perfumam o ar (14) e as encantadoras
guirlandas com abelhas zunindo que enfeitam a
floresta, decidiu desfrutar junto das pastoras. (15)
Junto de Rāma7, Śauri8 cantou versos muito
melodiosos, amáveis para as mulheres, em harmonia
com o tantrin9 tocado de muitos modos. (16) Ao
ouvirem o som encantador das canções, as pastoras
deixaram suas moradas e foram depressa para onde o
Algoz-de-Madhu estava. (17) Uma pastora cantou
suavemente em harmonia com a música; outra, atenta,
acompanhou mentalmente. (18) Veio uma timidamente
dizendo “Kṛṣṇa! Kṛṣṇa!”; veio outra, cega de amor,
tocar nele sem timidez. (19) Outra, vendo o
venerável do lado de fora, ficou dentro de casa, e
meditou sobre Govinda com olhos cerrados, em
absorção completa nele. (20) Reduzindo o efeito dos
atos auspiciosos com a alegria suprema da mente
projetada nele e com cômputo dos feitos de
transgressão totalmente dissolvido pela dor de não
encontrá-lo, outra pastora, retendo o alento,
atingiu a libertação pensando no criador do mundo,
que é a forma do brahman supremo (parabrahma).
(21-22) Cercado pelas pastoras, Govinda, com desejo
de iniciar a dança rāsa, foi reverenciar a noite,
encantadora com o luar de outono. (23) E foram
grupos de pastoras, com os corpos absortos nos
gestos de Kṛṣṇa, para outro local na floresta de
Vṛndā onde ele tinha ido. (24) Com o coração pleno
de Kṛṣṇa, assim disseram uma a outra: “Sou Kṛṣṇa,
vejam meus passos, eu ando graciosamente”; outra diz
“escutem minha canção, é de Kṛṣṇa.” (25) “Pare
Kāliya!”, disse uma outra, “Eu sou Kṛṣṇa!”, movendo
o braço para lutar, como no gesto de Krṣṇa. (26)
Outra diz, “Ó Pastores! fiquem tranqūilos, não há
perigo com as chuvas, eu levanto o Govardhana.” (27)
“Que o gado ande à vontade, eu matei Dhenuka10”, diz
outra imitando os trejeitos de Kṛṣṇa. (28) Assim
ficaram as pastoras, prazerosamente distraídas nos
gestos variados de Kṛṣṇa, brincando na floresta de
Vṛndā. (29)
Olhando para o chão, uma delas, uma bela pastora,
com o corpo curvado, arrepiada, com os olhos de
lótus luminosos, disse: (30) Vejam esses passos de
Kṛṣṇa, que passeia graciosamente adornado e deixa
uma linha marcada com o gancho, a concha, o raio e o
estandarte. (31) Alguma mulher de feitos auspiciosos,
cujas marcas dos pés pequenos estão próximas dos
dele, veio enternecida pela atração por ele. (32)
Aqui decerto Dāmodara11 colheu flores na parte alta
já que só há uma pequena porção na frente das
pegadas do magnânimo. (33) Ela sentou aqui e foi
enfeitada com flores por ele – Viṣṇu, reverenciado
por ela na forma universal em algum outro nascimento.
(34) Vejam: ele a deixou, muito altiva por ter sido
agraciada com o arranjo de flores, e se foi por esse
caminho. (35) Uma outra, incapaz de acompanhá-lo,
indolente com o peso das ancas, foi rapidamente nas
pontas dos pés para o seu encontro. (36) A amiga vai
junto dele com os dedos seguros em sua mão e as
pegadas mostram as marcas dos pés distanciados. (37)
Desconsiderada pelo pouco contato da mão dele – de
gesto enganador – os pés dela estão marcados em
meia-volta, que retorna, desiludida e vagarosa. (38)
Decerto Kṛṣṇa disse a ela “vou depressa” e “depois
procuro você”, pois que as marcas dos passos estão
apressadas. (39) Kṛṣṇa entrou na floresta densa,
aqui os passos não aparecem mais. Voltem, já que
este lugar não tem a claridade do luar. (40)
Sem
esperança de ver Kṛṣṇa, as pastoras retornaram,
foram à orla do rio Yamunā e lá cantaram seus feitos.
(41) Então as pastoras viram a ele que vinha, com a
boca que é como um lótus radiante, o protetor dos
três mundos, o agente infatigável. (42) Uma viu
Govinda que vinha e, muito oriçada, disse “Kṛṣṇa,
Kṛṣṇa, Kṛṣṇa”, sem poder dizer algo mais. (43) Outra,
marcando a fronte com a sobrancelha arqueada, olhou
para Hari e, com as abelhas de seus olhos, bebeu no
lótus da boca dele. (44) E mais outra, olhando
Govinda com os olhos semicerrados, contemplando o
corpo dele, mostrou-se absorvida em meditação. (45)
Então Mādhava agradou a umas com falas amorosas, a
outras com um olhar cativante, e a outras mais com o
toque das mãos. (46)
Hari,
de feitos sublimes, foi desfrutar da dança rāsa
junto das pastoras, cujas mentes estavam agraciadas,
mas a formação da roda do rāsa não pôde ser feita
porque cada pastora quis ficar num único lugar, não
pretendendo sair do lado de Kṛṣṇa. (47-48) Hari foi
tomando a mão de uma por uma e formou o círculo do
rāsa, com as pastoras de olhos cerrados pelo toque
das mãos. (49) Então a dança iniciou com o toque dos
braceletes em movimento, seguida da música com o
canto dos versos dedicados ao outono. (50) Kṛṣṇa
cantou em homenagem à Lua de Outono, ao luar, à flor
de lótus, mas as pastoras, apenas uma única coisa
muitas vezes: o nome de Kṛṣṇa. (51) Uma delas,
envolvida na dança, pôs o braço, feito uma liana
tinindo com as pulseiras palpitando, no ombro do
Algoz-de-Madhu. (52) Outra pastora, artificiosamente
versada nos cantos de louvor, de braços exuberantes,
abraçou e beijou o Matador-de-Madhu. (53) Os braços
de Hari, movendo-se para tocar o rosto das pastoras
e para serem louvados, suspensos, com arrepios,
ficaram tomados pela transpiração. (54) Enquanto
Kṛṣṇa cantava muito alto uma música para a dança,
elas cantavam duas vezes mais alto: “Kṛṣṇa, Kṛṣṇa é
o Supremo!”. (55) Indo e voltando na roda, ficavam
face-a-face: para um lado e para o outro, as belas
pastoras amaram Hari. (56) Enquanto o Algoz-de-Madhu
gozava junto às pastoras, cada instante sem ele foi
considerado como milhões de anos. (57) As amadas
pastoras, ainda que impedidas pelos maridos, pais e
irmãos, deleitaram Kṛṣṇa durante a noite. (58)
O
Matador-de-Madhu, o removedor de males, de essência
incomensurável, concebido como um jovem rapaz gozou
junto a elas por noites. (59) Ele é o Soberano cuja
forma é a essência das essências, que reside em tudo,
permeando todos os seres, os maridos delas e elas.
(60) Assim como o éter, o fogo, a terra, a água e o
ar estão presentes em todas as coisas, ele é a
essência que a tudo permeia. (61)
NOTAS
1.
Conta o capítulo anterior que Kṛṣṇa protegeu os
pastores contra a fúria de Indra, que mandou chuvas
destruidoras sobre os pastos de Gokula. Kṛṣṇa os
salvou a todos levantando sobre seu braço o monte
Govardhana e assim cobriu o povo e o animais das
águas mandadas contra eles. A ira de Indra foi
provocada por Kṛṣṇa, que convenceu os pastores que
não o venerassem, e sim a montanha, já que esta é
quem sustenta o gado e os pastores, e não o deus,
que com as chuvas, sustenta a plantação e os
agricultores.
2. Nome de Indra.
3. Nomes de demônios derrotados por Kṛṣṇa.
4. Nome da aldeia em que habitam os pastores.
5. Nome de Kṛṣṇa relativo ao episódio em que matou o
demônio de nome Keśin.
6. Variedades de seres sobrenaturais.
7. Nome do irmão de Kṛṣṇa, Balarāma.
8. Patronímico de Krṣṇa.
9. Instrumento musical com três cordas.
10. Nome de um demônio derrotado por Kṛṣṇa.
11. “Cingido-na-cintura”, nome de Kṛṣṇa.
Tradução de João Carlos Barbosa Gonçalves, IN
"Celebração
do mito no Gītagovinda de Jayadeva –
apresentação e tradução
do poema sânscrito segundo sua relação com as
narrativas épicas",
dissertação de mestrado, FFLCH-USP, 2004.
http://www.om.pro.br
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